Skip to content Skip to footer

Problemas

Arte, Engenho e Criação

O que é um problema de damas?

Para além da sua dimensão competitiva, o Jogo de Damas possui uma notável vertente artística: a composição de problemas. Trata-se de uma actividade criadora em que o tabuleiro e as peças constituem os elementos de uma construção intelectual, concebida para surpreender, desafiar e proporcionar prazer estético a quem procura descobrir a sua solução.

Um problema de damas consiste numa posição especialmente concebida, acompanhada de um enunciado que estabelece o objectivo a alcançar, habitualmente «Jogam as brancas e ganham».

Não basta, porém, dispor algumas peças sobre o tabuleiro e encontrar uma sequência vencedora. Para merecer a designação de composição artística, um problema deve apresentar uma ideia que justifique a sua existência: um tema desenvolvido com engenho, originalidade e elegância, respeitando as regras do jogo e os princípios próprios desta disciplina.

Entre as qualidades tradicionalmente exigidas a um bom problema encontram-se a legalidade da posição, isto é, a possibilidade de ela resultar de uma partida regularmente disputada, a correção da solução, a originalidade, a economia de meios, a dificuldade equilibrada e, naturalmente, a beleza da combinação.

A dificuldade, por si só, não faz um bom problema. O mérito artístico reside sobretudo na ideia que o anima e na forma como essa ideia se revela ao solucionista.

A linguagem da composição artística

O problemismo desenvolveu uma terminologia própria que permite identificar e estudar os elementos constitutivos das composições.

Designa-se por chave o primeiro lance da solução, muitas vezes inesperado e aparentemente contrário ao objectivo pretendido. O tema é a ideia fundamental que confere personalidade à composição, podendo manifestar-se ao longo do desenvolvimento ou apenas no desfecho. As variantes são os diferentes caminhos que a solução pode assumir em consequência das respostas do adversário.

Sacrifícios, fintas, atracções, capturas angulares, armadilhas, bloqueios e prisões figuram entre os numerosos recursos utilizados pelos compositores. A sua combinação, por vezes surpreendente, permite realizar obras de grande subtileza e complexidade.

Os principais tipos de problemas

Na tradição portuguesa, cuja nomenclatura foi amplamente desenvolvida e sistematizada pela Enciclopédia Damista, distinguem-se duas grandes categorias de problemas:

Problemas clássicos

Caracterizam-se por uma solução essencialmente forçada, em que as respostas do adversário permitem desenvolver a ideia concebida pelo autor. O desfecho pode verificar-se por captura das peças contrárias, bloqueio ou prisão.

Consoante a estrutura da solução e a natureza do desfecho, distinguem-se problemas clássicos puros, impuros e mistos. Estas designações traduzem características técnicas diferentes e não constituem, por si mesmas, uma apreciação do mérito artístico da composição.

Problemas variáveis

São aqueles em que o adversário dispõe de diferentes respostas relevantes, originando variantes que obrigam a soluções distintas, ainda que todas conduzam ao resultado estabelecido no enunciado.

A composição variável permite reunir, numa única posição, diferentes ideias temáticas, exigindo do autor particular capacidade de concepção e harmonização.

A nomenclatura portuguesa distingue, entre outros, os variáveis do tipo clássico, os de grau múltiplo e os mistos.

Estudos e finais artísticos

Embora pertençam ao universo da composição artística, os estudos e finais distinguem-se dos problemas clássicos e variáveis pelo papel determinante da técnica de finalização. Neles assumem especial importância os lances livres, as manobras posicionais, os domínios à distância e a exploração dos recursos do material existente.

Pela sua especificidade e relevância para o jogo prático, os estudos e finais dispõem de um espaço próprio nesta Biblioteca Artística.

Uma tradição com vários séculos

As origens da composição artística nas damas de 64 casas encontram-se na tradição dos grandes tratadistas espanhóis dos séculos XVI e XVII, entre os quais se destacam Pedro Ruiz Montero e Juan Timoneda.

Em Portugal, embora sejam conhecidos trabalhos desde o início do século XIX, foi sobretudo a partir das primeiras décadas do século XX que o problemismo adquiriu desenvolvimento e expressão próprios.

Entre os muitos autores portugueses que contribuíram para esta evolução merecem especial referência Francisco Henriques, Orlando Augusto Lopes, António Eduardo Igrejas, Mário Diniz Vaz, Eduardo Castelo, Jorge Gomes Fernandes, José Anselmo Trabuco, Joaquim Elíseo Restivo, Manuel Melo, Luís Xavier, David Alves Ferreira e Eduardo Valente, sem esquecer numerosos outros compositores cujas obras enriqueceram o património artístico das damas portuguesas.

Particular importância assumiram os trabalhos de Francisco Henriques sobre a técnica de construção do problema, publicados na década de 1940, e a actividade de Orlando Augusto Lopes, pioneiro na definição e sistematização de conceitos fundamentais, designadamente os relacionados com o problema variável.

A criação da Enciclopédia Damista, em Abril de 1955, constituiu um marco decisivo nesta história. Durante cinquenta anos, até 2005, a revista e o respectivo tratado publicaram, estudaram e divulgaram milhares de composições, tornando-se uma referência incontornável para os problemistas.

Neste labor de investigação e sistematização, avulta a figura do Dr. Sena Carneiro, responsável por uma extensa classificação dos temas e manobras da composição artística, que abrangeu 161 temas e manobras, acompanhados da respectiva caracterização técnica e histórica.

Concursos e campeonatos de composição artística

A realização de concursos desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do problemismo português, estimulando a criação de trabalhos inéditos, a descoberta de novos temas e o aperfeiçoamento da técnica dos compositores.

Ao longo do século XX, diversas publicações promoveram concursos de produção e resolução de problemas. A Enciclopédia Damista prosseguiu e aprofundou essa tradição, realizando também torneios temáticos, entre os quais se conta o dedicado ao tema «Cavilha de Dama Branca», em 1966.

Um marco particularmente importante ocorreu em 1973, com a realização do I Campeonato de Portugal de Composição Artística, organizado pela Enciclopédia Damista. Este campeonato utilizou uma tabela de classificação concebida pelo Dr. Sena Carneiro, destinada a avaliar as composições segundo critérios como a originalidade, o conteúdo artístico, a beleza e a dificuldade.

A primeira edição contemplou as categorias de Tema Livre, Tema Finta e Estudos/Finais, tendo Orlando Augusto Lopes alcançado o primeiro lugar nas três categorias. Em 1974 realizou-se o II Campeonato, com provas nas categorias de Tema Livre, Mate a Descoberto e Estudos/Finais.

Trabalho vencedor na categoria Tema Livre do I Campeonato de Portugal de Composição Artística (1973) – Orlando Augusto Lopes

(Clicar na posição para ver a solução)

Jogam as brancas e ganham

1. 16-3 9-5; 2. 3-6 11×2; 3. 20-16 2×20; 4. 16×1 24-20; 5. 1-19 20-16; 6. 19-15 16-12;      7. 15×08 GB

Com a criação da Federação Portuguesa de Damas, a competição ganhou enquadramento federativo.

Em 1981 e 1982 realizaram-se os I e II Campeonatos Nacionais de Produções, homologados pela FPD. A competição seria retomada em 1999, prosseguindo anualmente até 2003, com a realização das edições III a VII.

Nestes últimos campeonatos, as produções foram distribuídas por três categorias: Problemas Clássicos, Problemas Variáveis e Estudos/Finais.

Entre os resultados mais assinaláveis encontra-se o do V Campeonato Nacional de Produções, em 2001, no qual Eduardo Valente conquistou o primeiro lugar nas três categorias, demonstrando uma notável versatilidade criadora.

Trabalhos vencedores das categorias Clássicos, Variáveis e Estudos/Finais no V Campeonato Nacional de Produções (2001) – Eduardo Valente

Problema clássico

Problema variável

Estudos e finais

(Clicar na posição para ver a solução)

(Clicar na posição para ver a solução)

(Clicar na posição para ver a solução)

Jogam as brancas e ganham

Jogam as brancas e ganham

Jogam as brancas e ganham

1. 02-05 19-26; 2. 29x06x17 (29x03x17 EMP) 01×10; 3. 17×12 14-32; 4. 12-19 32×10; 5. 18-27 30×23; 6. 21×01 23-20; 7. 01-19 20-16; 8. 19-15 16-12; 9. 15×08 GB

1. 29-22 01×32; (1… 01×28; 2. 22-27 30×23 3. 15-20 23×16; 4. 08×32 16-12; 5. 32-14 12-08; 6. 14-04 GB) (1… 1×23; 2. 22-27 23-16; ( 2… 23-01; 3. 15-02 30×23; 4. 8×32 GB) ( 2… 23-32; 3. 15-19 30×14; 4. 8×1 GB) ( 2… 23-28; 3. 15-20 30×16; 4. 08×32 16-12; 5. 32-14 12-08; 6. 14-04 GB) 3. 27-23 16×27; 4. 15-26 30×21; 5. 08×31 GB) 2. 22-27 30×23; 3. 15-19 23×14; 4. 8×01 GB

1. 27-22 19-01; (1… 19-08; 2. 06-24 26×19; 3. 7-12 8×15; 4. 24×11 GB) (1… 19-32; 2. 06-20 26×19; 3. 20-23 19-15; 4. 23-1 GB) 2. 07-25 26×19; 3. 06-10 1×14; 4. 25×11 GB

Estas competições, e os numerosos trabalhos que lhes estiveram associados, constituem um património de grande valor para a história das damas portuguesas, tanto pela qualidade das composições como pelo contributo que deram à evolução da teoria e da técnica do problemismo.

Preservar a memória, estimular a criação

A composição artística representa uma das expressões mais elaboradas da cultura damista. Concilia o rigor das regras com a liberdade criadora, a investigação analítica com a sensibilidade estética, a disciplina intelectual com a imaginação.

A Federação Portuguesa de Damas reconhece a importância desta tradição e tem a intenção de retomar a realização de concursos e campeonatos de composição artística, recuperando uma actividade que durante décadas contribuiu significativamente para o prestígio do damismo português.

Pretende-se, assim, estimular o aparecimento de novos compositores, proporcionar oportunidades de participação aos autores já consagrados e promover o conhecimento desta vertente do jogo junto das novas gerações.

Ao mesmo tempo, esta Biblioteca Artística procurará divulgar as obras dos grandes problemistas, preservando um património que merece ser conhecido, estudado e transmitido.

O Jogo de Damas não se esgota na competição. Também no silêncio de um tabuleiro, perante uma posição cuidadosamente imaginada, nascem verdadeiras obras de arte.

Animação FPD Footer
Federação Portuguesa de Damas

Tel.: 265 411 407 (chamada para a rede fixa nacional)
Tel.: 929 154 545 (chamada para a rede móvel nacional)

Rua Mário Sacramento n.º 46, Mercado 2 de Abril – 1º Piso, Loja 1.03 2910-599 Setúbal Portugal

© 2022 Federação Portuguesa de Damas – Todos os Direitos Reservados | Termos e Condições | Desenvolvido por Evolution Repair